A força da Juventude de France Powell
Uma senhora de 70 Anos. Uma bicicleta desdobrável com alforges. Muitos sonhos.
Foi assim que France Powell se apresentou em maio de 2017. Conhecemo-nos através da rede de hospitalidade WarmShowers, uma rede específica para ciclorturistas. Encontrámo-nos para conversarmos e para trocar umas dicas.
Não ficando indiferente a esta história senti que tinha de a escrever, tinha que a partilhar com mais gente. Para todos verem que é verdade e é possível. Parece uma história de contos de fadas, ou o início de um livro de romance, mas não, é a história da France Powell.

Como começou a minha relação de amor com o ciclismo? Bem, alguém poderia ter dito com sinceridade que foi tudo menos amor à primeira vista! Quando as minhas pernas se tornaram suficientemente longas, aprendi a andar na bicicleta da minha mãe. O meu pai segurou-me o selim até eu ganhar equilíbrio e soltou-me. Depois de alguns acontecimentos menos felizes, a minha carreira de jovem ciclista terminou abruptamente; mal sabia eu que o ciclismo se tornaria uma paixão.
O meu nome é France Powell. Tenho quase 71 anos e vivi para viajar nos últimos seis anos. A minha bicicleta preferida é uma desdobrável laranja de turismo que eu batizei de Betsy. Desde que viajo sozinha, falo com a Betsy de todas as maneiras! Se alguma vez levou com o pedal inesperadamente na canela, saberá o que quero dizer!
A Betsy percorreu os estradões cubanos e as estradas madeireiras canadianas; Ela rolou pelas íngremes rotas de São Miguel, Açores e pelo Japão. Dobrar a Betsy é um jogo de crianças e permitiu-me variar facilmente os meios de transporte. Embarquei em navios de cruzeiro na Noruega ou no Quebec; andei no transCanada ou levei-a num navio para a Europa; Também andámos em táxis e de carro. Tudo se torna mais fácil com a Betsy num saco.

Betsy na Dinamarca
Porque tenho tempo livre, viajo por prazer e conheço muitas pessoas interessantes. Muitas vezes, as minhas ideias para viagens vêm de vários fóruns de bicicleta. Existem muitos continentes e países que eu gostaria de explorar, como África, América do Sul, Nova Zelândia e Índia, mas não sei se vou viver o suficiente, e de forma saudável, para visitá-los. Para já, neste ano, viajei durante três meses na Europa (litoral de Portugal, Espanha e França) e na costa da Colúmbia Britânica. Prefiro andar pelo litoral dos países.
Algumas pessoas parecem surpreendidas porque viajo sozinha; também sinto-me surpreendida porque costumava ser bastante avessa ao risco. Gostava sempre de saber onde estaria a cada dia e onde dormiria todas as noites. As viagens de bicicleta mudaram a minha maneira de ser. Agora uso uma aplicação para organizar as minhas rotas em tempo real. Os meus mapas digitais mostram rotas de bicicleta, a altimetria e alojamento. Confio no GPS para a navegação. Eu costumava ter medo de ter furos, perder-me ou ser maltratada. Mas agora, confio na minha experiência para resolver os problemas. As pessoas dizem que sou corajosa. Não me sinto corajosa, mas estou decidida a não deixar que o medo se sobreponha e a confiar nas pessoas. Acima de tudo, eu aceito que, em última análise, não consigo decidir o meu destino.
Você decide viajar na sua bicicleta e talvez se pergunte o que é preciso. Para mim, acho que é preciso mais do que estar em forma, ter equipamento, tempo e dinheiro! Para viajar 6-7 meses por ano, ou mais, é preciso ser mental e espiritualmente forte. Preciso de estar em paz comigo própria e sentir-me grata pelo privilégio de viajar mesmo quando estou constantemente a ser desafiada. Preciso aceitar os meus limites. Sou lenta e cometo erros. Eu sonho em grande, mas posso atingir menos e sentir-me bem. Tenho dificuldade em pedir ajuda aos outros. Mas no fim, tenho aprendido que viajar é fazer conexões com o outro, experimentar as outras culturas e explorar os seus países.

France Powell em Cuba
Por que não visitar São Miguel, pensei impulsivamente! Por que não, de facto, já que se encontrava no meu caminho para o Porto! Em pouco tempo, estava a viajar para Ponta Delgada, um destino exótico. Eu visitei a ilha na primavera quando a Columbia britânica, minha província natal, ainda mal se esquivava das neves do inverno. Embora muitas vezes eu tivesse de empurrar a minha bicicleta carregada ao longo da íngreme estrada circular da ilha, senti que este facto me preparou para a minha jornada nos litorais portugueses, espanhóis e franceses.
